Canal Porta dos Fundos põe ao ar vídeo controverso estrelando um “garçom vegetariano”

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O canal de humor Porta dos Fundos lançou hoje um vídeo intitulado “Garçom vegetariano”, em que um garçom fala a um casal de clientes alguns fatos, comprovados ou duvidosos, sobre a procedência cruel dos alimentos de origem animal pedidos por eles. Aprovado e elogiado por muitos veg(etari)anos, o vídeo traz um alerta válido sobre a nada inocente produção desses alimentos, mas é controverso por ser dúbio: não fica claro se a intenção por trás do vídeo é promover uma conscientização bem-humorada ou ironizar com os veg(etari)anos mais proselitistas e menos bem informados.

Entre os detalhes mais bizarros mencionados pelo garçom, estão o confinamento dos frangos e o abate dos bovinos. Cada detalhe tem como reação do casal cliente caras de asco e surpresa. No final das contas, os clientes terminam pedindo uma salada com atum, o que, porém, não tem a abordagem do garçom – a cena termina com esse pedido, e só mostra a seguir, nos créditos, o atendente pedindo à cozinha atuns submetidos à asfixia para morrerem.

O vídeo escancara que a produção de alimentos de origem animal é repleta de características nojentas e manifestamente inaceitáveis, mas acaba derrapando em dar algumas informações errôneas ou ultrapassadas. Por exemplo, os frangos não são engordados nas granjas industriais com hormônios, mas sim com antibióticos com efeito indutor de crescimento, sendo estes, por sua vez, auxiliados por uma perversa seleção genética das aves reprodutoras mais “carnudas” a qual acaba lançando à existência frangos condenados a se tornarem pesados demais para suas próprias pernas poderem sustentá-los em pé.

Eles também não são aprisionados em pequenas gaiolas – são as galinhas “poedeiras” as vítimas de confinamento em baterias de gaiolas, enquanto os frangos “de corte” são mantidos parcialmente soltos circulando em enormes galpões lotados. E os abates com marretas estão sendo substituídos, nos grandes matadouros, pelos não menos hediondos métodos de “abate humanitário”, que têm enganado a população com a sensação de que matar sem crueldade óbvia seria mais ético e aceitável do que abater com métodos rudimentares.

Tais dados errados ajudam, inclusive, a dar margem a uma interpretação desfavorável sobre a atitude do garçom em denunciar os maus tratos na pecuária: o discurso dele seria não necessariamente em favor dos animais, mas sim numa ironia contra a postura dos veg(etari)anos que fazem proselitismo do não consumo de alimentos de origem animal em horas socialmente inadequadas, como almoços, banquetes e churrascos. Parece estar ali sendo explorado o estereótipo do “veg(etari)ano pregador inconveniente” que não checa a veracidade de suas denúncias. É evidenciável ali uma provável crítica aos veg(etari)anos que acreditam em informações errôneas como os argumentos biológicos de Gary Yourofsky e o mito dos frangos hormonados.

Portanto, se o Porta dos Fundos quis criticar o consumo de alimentos de origem animal, poderia ter sido mais inteligente na criação do roteiro do seu vídeo. Porque ele dá margem a essa dupla interpretação, segundo a qual existe ali tanto um escancaramento da natureza violenta e antiética do consumo desses alimentos como uma ironização da postura dos veg(etari)anos que tentam promover conscientização em tempo, forma e conteúdo inadequados.

O vídeo pode ser assistido abaixo ou acessado em sua página no YouTube:

14 Comments on “Canal Porta dos Fundos põe ao ar vídeo controverso estrelando um “garçom vegetariano”

  1. A intenção foi tanto criticar o estereotípico “proselitismo vegetariano” (que por sinal é muito manipulado e exagerado pelos carnistas) quanto para alertar dos males do consumo de carne e derivados animais (e tais críticas foram feitas na hora errada justamente para frisar o tal proselitismo que eu já citei). É isso, mas o principal intuito do vídeo foi criticar vegetarianos, não há dúvidas disso.

  2. Muito bem percebido, Robson!

    Precisamos ativar nosso olhar para minúncias e detalhes, que serão cada vez mais decisivas, à medida que o vegetarianismo & libertação animal for deixando de ser algo estranho e exótico aos olhos da opinião pública…

    Gostaria também de lembrar que o discurso do garçom veiculado pelo vídeo abre implicitamente margens para o BEM-ESTARISMO, em vez do ABOLICIONISMO ANIMAL. Isso por que o garçom centra sua crítica no “como” se dá a produção animal, restringindo sua crítica àquelas maneiras específicas de exploração que ele cita, nem sempre majoritárias, em vez de fazer sua crítica através da percepção de que as violências e sofrimentos a que os animais não-humanos são submetidos emanam da prática generalizada de se tratar os animais como propriedade, INDEPENDEMENTE POIS DAS MANEIRAS LOCALIZADAS E VARIÁVEIS DE COMO ESSA RELAÇÃO DE PROPRIEDADE SE DÁ…

    Algo análogo ocorre em relação ao vídeo TERRÁQUEOS, conforme bem percebido pela Bia Dantas, em seu artigo na ANDA…

  3. Não acho que a intenção do vídeo foi “promover uma conscientização bem-humorada ou ironizar com os veg(etari)anos mais proselitistas e menos bem informados.”,
    A intenção era só fazer um vídeo engraçado…

    Fizeram piada sobre vegetarianos, sem ofender 99% dos vegetarianos…
    Um artigo científico procura não passar nenhuma informação errônea, o de humor pode só fazer piada.
    Ficar analisando os detalhes de possíveis mensagens subliminares, pode ser pior pra imagem do vegetarianismo, que informações errôneas em um vlog de humor.

    • Vídeo engraçado com informações errôneas que não condizem com a realidade? E o ideal diante de vídeos assim é aceitar calado que um vídeo ironize com vegetarianos e transmita informações erradas que confundem as pessoas?

      • O ideal diante de vídeos assim é deixar passar, até rir se achou graça! Não teve piada de mau gosto, alguns onívoros vieram me falar do vídeo e abriu caminho pra mais uma conversa, bem humorada, com leves marteladas direitos animais na cabeça deles, rs

        Não é atoa que vegetariano tem fama de chato e mau humorado…
        Também não acredito que num vídeo de humor, falar de frango com hormônio ou antibiótico mude qualquer dialogo sério sobre libertação animal, esses detalhes muito provavelmente vão ficar só no debate de defensores da causa.
        Mas entendo que cada um tem seus debates de forma diferente…

        • Então o ideal diante de vídeos como esse é aceitar tudo de forma acrítica, mesmo que haja uma alfinetação contra os veg(etari)anos?

    • Concordo… Que besteira ficar se ofendendo com tudo. Parece até alguns religiosos fanáticos, tudo vira “blasfêmia”. Eu ri e gostei muito do vídeo! Não me ofendi nem um pouco!

      • Quer dizer que, pra não parecermos “religiosos fanáticos”, ou rimos ou nos calamos diante do vídeo. Se criticar, é automaticamente fanatismo. É isso?

  4. Oi, Robson. Seu comentário foi bastante útil para que eu compreendesse o meu estranhamento diante do vídeo. Te linkei lá no meu blog. Talvez a gente não tenha a mesma visão sobre o assunto, mas creio que há pontos em comum.

    Obrigada por dividir com a web a sua impressão!

  5. Conheci esse blog hoje e estou admirado com a qualidade das informações e o alto nível da redação dos artigos. Com relação ao vídeo, tive a mesma percepção do blogueiro. Acredito que o PDFundos se preocupou mais em satirizar, ao invés de conscientizar. Sim, essa é a função deles, todos sabem. Mas no momento em que milhões de pessoas assistem ao programa, as informações transmitidas devem ser precisas e corretas.

    Abraços e parabéns pelo trabalho.

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